
Reguladores do setor de loterias estaduais discutiram os obstáculos e as possibilidades de implementar os Video Lottery Terminals (VLTs) em pontos de venda físicos durante o SBC Summit Rio. Hazenclever Lopes Cançado, presidente da Loterj, Lucinéia Souza, diretora jurídica e compliance do Lema Group, e Éverton Sales, diretor de operações da Lotese, sob relatoria da advogada Fernanda Meireles participaram do painel “A Realidade por Trás da Expansão dos VLTs”.
Cançado solicitou aos presentes que considerassem “um grande mercado de tecnologia e entretenimento, que já gera bilhões em receita e dezenas de milhares de empregos”. O presidente da Loterj apontou tensões entre advogados, operadores e investidores na regulamentação dos VLTs no Rio de Janeiro. Advogados buscam segurança jurídica. Operadores necessitam de estabilidade. Investidores focam em retornos de longo prazo.
O dirigente afirmou que o modelo implementado no Rio de Janeiro vai além da simples colocação de máquinas em estabelecimentos comerciais. Cançado declarou que “VLT é política pública. É geração de emprego, atração de turismo e redução da saída de apostadores para cassinos no exterior”. O presidente da Loterj defendeu maior participação dos reguladores estaduais para eliminar barreiras legais. Segundo dados apresentados durante o painel, o Rio de Janeiro contará com milhares de terminais VLT instalados em diferentes pontos da cidade, gerando aproximadamente 15 mil empregos diretos e indiretos.
Estrutura técnica exige integração entre múltiplos sistemas
Souza explicou o funcionamento técnico dos terminais VLT. Os equipamentos operam integrados a um sistema central responsável por garantir controle e rastreabilidade em tempo real. A diretora jurídica e compliance do Lema Group destacou que “[O VLT] não é um equipamento isolado. Precisa de governança, compliance, segurança de pagamentos e fiscalização.”
No ambiente digital, todas as operações são centralizadas e remotas. Nos pontos de venda físicos, existe infraestrutura local, fiscalização in loco e desafios logísticos específicos. Souza afirmou que a solução passa por uma cadeia compartilhada entre regulador, operador e fornecedor. A diretora do Lema Group citou o uso de friendly wallet como exemplo prático dessa integração.
Esse recurso permite que o apostador migre entre plataformas sem perder saldo. Todas as transações são auditadas em tempo real. A executiva também destacou que a tecnologia blockchain tem sido estudada como alternativa para aumentar a transparência e rastreabilidade das operações, embora sua implementação ainda enfrente desafios regulatórios no Brasil. Sales compartilhou a experiência da Lotese na implantação dos VLTs. O diretor de operações destacou o contato tête-à-tête com o público como diferencial em relação aos canais puramente digitais.
Perfil do apostador valoriza atendimento presencial
Nos canais digitais, o apostador é apenas um CPF. Nos terminais físicos, o jogador frequenta a mesma banca, cria vínculo com o comerciante e confia no atendimento presencial. Sales afirmou que “O público dos VLTs é maduro, acima de 45 anos, exigente e desconfiado por natureza. Mas, quando você oferece transparência e uma boa experiência, o retorno supera as expectativas.”
O diretor da Lotese ressaltou o papel do omnichannel na inclusão social. A estratégia leva tecnologia de ponta a pessoas que não têm acesso a smartphones ou internet. Esse público busca entretenimento regulamentado. Dados do setor indicam que aproximadamente 40% dos usuários de VLTs no Rio de Janeiro não possuem smartphones ou acesso regular à internet, reforçando a importância dos pontos físicos como canal de inclusão digital e social. Os debatedores identificaram características específicas do apostador de VLT. Esse perfil de jogador está fora das estatísticas de PIX e aplicativos. O apostador de VLT valoriza o atendimento pessoal nas unidades físicas.
A estratégia omnichannel foi apresentada como uma ponte entre o mundo físico e digital. Os especialistas concordaram que essa abordagem oferece ao apostador de VLT a familiarização progressiva com o jogo online. Essa transição gradual amplia o mercado, conforme destacado pelos debatedores. Cançado mencionou que estudos internos da Loterj demonstram que cerca de 25% dos usuários de VLTs eventualmente migram para plataformas digitais após se familiarizarem com os jogos nos pontos físicos.
Governança e compliance como base para operações
Questionado sobre o risco de associação à crise reputacional das apostas, Cançado respondeu: “Não podemos nos furtar do debate moral. Nossa bandeira é a legalidade, a geração de emprego e a aplicação responsável dos recursos em projetos sociais.” O presidente da Loterj enfatizou que parte significativa da arrecadação dos VLTs é destinada a programas de saúde, educação e segurança pública no estado do Rio de Janeiro, com prestação de contas trimestral à sociedade. Souza defendeu que o ponto inicial indispensável é montar uma estrutura mínima de governança e compliance para mitigar riscos desde o início.
A diretora jurídica e compliance alertou: “Sem um arcabouço que permita ajustar rapidamente procedimentos e políticas, o operador fica preso a eventuais falhas que se agravam no decorrer da exploração.” Souza também destacou a importância de programas de jogo responsável integrados aos sistemas de VLT, incluindo mecanismos de autoexclusão e limites de apostas configuráveis pelos próprios usuários. Os participantes enfatizaram que o modelo requer uma visão de política pública voltada a equilibrar entretenimento, inclusão social e geração de valor econômico.
O desafio envolve preservar a credibilidade junto ao investidor, ao operador e ao apostador. Sales concluiu sua participação destacando que a expansão sustentável dos VLTs depende de um tripé: regulação clara, tecnologia confiável e responsabilidade social, elementos que devem caminhar juntos para garantir a longevidade do setor no Brasil.
FONTE: BNL DATA





