Durante o Olhar da Cidadania, o Médico psiquiatra, Hermano Tavares, analisa o crescimento das bets no Brasil e alerta para os impactos do jogo compulsivo na saúde mental
No Brasil, ao menos 19% dos usuários de internet fizeram apostas online em 2025, diz o levantamento TIC Domicílios, divulgado pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br).
Impulsionadas pela facilidade de acesso, o marketing agressivo e a promessa de ganhos financeiros, as casas de apostas online se expandem rapidamente no país. Como consequência, cerca de 10,8 milhões de brasileiros, a partir de 14 anos, jogam de forma arriscada ou problemática, conforme o Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD III), com dados de 2023.
Para discutir as apostas online no Brasil, também conhecidas como “bets”, o Olhar da Cidadania recebeu o médico psiquiatra, Hermano Tavares. Durante o programa, ele abordou o atual contexto de apostas do país e os impactos na economia e, sobretudo, na saúde.
Potencializando um problema antigo
O vício em apostas não é um problema novo no Brasil. Conforme Tavares, que é referência no estudo das dependências comportamentais e dos transtornos do controle do impulso, essa modalidade impacta pessoas há décadas.
No entanto, segundo o médico psiquiatra, o avanço tecnológico intensificou o cenário de vício, principalmente após 2018, quando as apostas esportivas online foram legalizadas no país por meio da Lei 13.756/2018.
Tavares lembrou que, apesar da legalização, as casas de apostas online ainda operavam sem fiscalização, regras e deveres adequados. “De repente, nossa sociedade foi invadida por ofertas de apostas online, sem regulamentação e sem qualquer previsão de arrecadação”, destacou.
Foi somente em 2023, com a conhecida “Lei das Bets”, que essa modalidade recebeu uma regulamentação definitiva, a qual define as normas de funcionamento, impostos e exigências para as operadoras. Vale destacar que a lei entrou em pleno vigor somente em janeiro de 2025.
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Vício em bets
Durante o programa, o apresentador, Joel Scala, perguntou ao médico psiquiatra como um indivíduo pode identificar se as apostas online estão se tornando um problema. Para Tavares, isso acontece “quando uma pessoa deixa de apostar por entretenimento e começa jogar para recuperar o que perdeu.”
Além de médico psiquiatra, Tavares é professor associado da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador do Ambulatório do Jogo Patológico do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas. A partir da análise de dados de 8 mil pessoas, pesquisadores da USP desenvolveram uma ferramenta que pode auxiliar na reflexão sobre a relação de indivíduos com os jogos e apostas.
Chamada de Autoteste do Jogo, essa metodologia foi adotada pelo Governo Federal. Apesar de não ser um instrumento de diagnóstico, ela pode identificar uma relação problemática com as bets. Nessa dinâmica, a pessoa precisa responder a três perguntas:
- Você já tentou parar, reduzir ou controlar o seu jogo? Se sim, isso já lhe aconteceu três vezes ou mais?
- Quando você joga e perde, houve momentos em que você voltou um outro dia para jogar novamente e tentar recuperar o dinheiro perdido?
- Você já jogou para aliviar sentimentos desconfortáveis, como culpa, ansiedade, sensação de impotência ou depressão?
Caso responda “sim” a pelo menos uma dessas perguntas, a pessoa deve responder a uma quarta questão: “Em uma ou mais das vezes em que você tentou parar, reduzir ou controlar seu jogo, você ficou inquieto ou irritado?”
Cada resposta “sim” equivale a 1 ponto, com a pontuação total variando de 0 a 4. Conforme a pontuação, o teste avalia a possível relação do respondente com as apostas:
- 0 pontos: você provavelmente não tem problemas com o jogo! Mantenha atenção aos sinais de alerta e procure informações no Meu SUS Digital, Ouvidoria do SUS e Unidades Básicas de Saúde (UBS);
- 1 ponto: você pode estar apresentando problemas com o jogo. Sugerimos que reflita sobre isso, converse com pessoas de sua confiança e busque uma Unidade Básica de Saúde (UBS) para acolhimento;
- 2 pontos: parece que você apresenta um possível problema com jogo. Sugerimos que busque apoio em uma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) da sua região;
- 3 pontos: parece que a sua relação com o jogo tem causado problemas com impactos significativos. Sugerimos que busque apoio em uma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) da sua região;
- 4 pontos: você apresenta sinais de problemas com o jogo. Sugerimos que você busque rapidamente apoio nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) ou nos Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) da sua região.
Vale destacar que o Governo Federal lançou um sistema de autoexclusão em sites de apostas. A Plataforma Centralizada de Autoexclusão é uma ferramenta que permite ao cidadão bloquear simultaneamente todas as contas em sites de apostas autorizados pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda (SPA/MF). É necessário utilizar uma conta gov.br de nível prata ou ouro.
Sobre o Olhar da Cidadania
O Olhar da Cidadania é um programa do Observatório do Terceiro Setor, apresentado pelo jornalista Joel Scala, contando com as colunas de Christian Dunker, psicanalista e professor titular do Instituto de Psicologia da USP e Paulo Artaxo professor titular e chefe do Departamento de Física Aplicada do Instituto de Física da USP.
O programa vai ao ar todas às quintas-feiras às 13:30h, na Rádio USP (São Paulo: 93.7 FM / Ribeirão Preto: 107.9 FM). Também é possível conferir os episódios posteriormente no portal do Observatório.
Fonte: Observatório do 3° Setor





