A LCA Consultoria Econômica divulgou nesta terça-feira (14), em Brasília, estudo inédito sobre endividamento e inadimplência das famílias brasileiras que contesta a narrativa de que as apostas esportivas são responsáveis pelo endividamento da população brasileira, como vem defendendo o presidente Lula e a bancada do PT. O levantamento aponta que o gasto com apostas corresponde a apenas 0,46% do consumo familiar, percentual significativamente inferior ao comprometimento da renda com outras despesas. A inadimplência de pessoas físicas no Sistema Financeiro Nacional alcançou 5,2% em fevereiro de 2026.
O indicador de inadimplência apresenta trajetória ascendente desde 2021. O patamar atual aproxima-se do registrado em maio de 2012, quando atingiu 5,5%. O crescimento do endividamento das famílias gera preocupação na sociedade e no governo, que tem atribuído às bets parte significativa do problema.

O endividamento familiar vinculado a investimentos de alto valor, como aquisição de imóveis e educação, pode apresentar aspectos positivos. O crédito emergencial ou de curto prazo, como cartões de crédito e cheques especiais, pressiona de maneira desproporcional a renda familiar. Em contexto de disparada dos juros, esse tipo de endividamento resulta em aumento da inadimplência.
A partir da pandemia de Covid-19, as famílias brasileiras passaram a utilizar de forma intensa e pouco planejada linhas de crédito altamente acessíveis, mas extremamente custosas. A crescente disponibilização desses instrumentos financeiros, facilitados por novas tecnologias digitais e crescente bancarização da população, não tem sido acompanhada por níveis adequados de educação financeira dos consumidores. O estudo da LCA aponta que esse fenômeno tem impacto muito mais relevante sobre o endividamento do que os gastos com apostas esportivas.
Gasto médio com apostas atinge R$ 122,00 mensais
A Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda registrou que o gasto líquido médio mensal dos apostadores brasileiros alcançou R$ 122 em 2025. Considerando a renda média real habitual do trabalho registrada em fevereiro de 2026, esse valor corresponde a 3,3% da renda dos apostadores. O percentual contrasta com os 30% da renda que famílias endividadas comprometem mensalmente com serviços da dívida, evidenciando que o peso dos juros no orçamento familiar é quase dez vezes superior ao das apostas.
O consumo com apostas corresponde a 0,46% dos gastos das famílias. A Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE indica que apostas integram a categoria de gastos com lazer. Em 2018, a categoria completa de lazer representou 8,5% da renda familiar, ou seja, as apostas representam apenas uma fração dos gastos totais com entretenimento.
O impacto monetário das apostas de quota fixa no orçamento familiar equivale ao do setor de bebidas alcóolicas. O gasto com apostas representa fração reduzida dos gastos com juros. A análise da LCA demonstra que, enquanto as apostas correspondem a 0,46% do consumo, os encargos financeiros com dívidas consomem parcela substancialmente maior do orçamento das famílias brasileiras.

População de inadimplentes supera em três vezes a de apostadores
A população brasileira totalizou 213,4 milhões de habitantes em 2025. A Serasa registrou 81,2 milhões de inadimplentes no país. O total de CPFs únicos que realizaram apostas atingiu 25,2 milhões.
Os inadimplentes representam 38,1% da população total. Os apostadores correspondem a 11,8% dos brasileiros. No mercado de apostas, verifica-se predominância masculina, com apenas 31,7% de participação feminina.
Mais de 74% dos apostadores têm menos de 40 anos. Mais de 54% dos inadimplentes possuem mais de 40 anos. O perfil dos apostadores difere de forma relevante do perfil dos inadimplentes, sugerindo que os grupos mais afetados pela inadimplência não coincidem com o público das apostas esportivas.
O estudo aponta que a expansão do crédito de curto prazo, impulsionada por novas tecnologias financeiras que avançam mais rapidamente do que o nível de capacitação e educação financeira da população, aliada à escalada das taxas de juros, configuram fatores mais diretos para o aumento da inadimplência. Os dados demográficos reforçam a distinção entre apostadores e inadimplentes. A pesquisa conclui que responsabilizar as apostas esportivas pelo endividamento das famílias brasileiras não encontra respaldo nos dados econômicos e demográficos disponíveis, indicando que o problema tem raízes mais profundas relacionadas ao acesso facilitado ao crédito caro e à falta de educação financeira da população.
Confira o estudo completo ‘Indimplência e Endividamento das Famílias’
Fonte: BNL Data



