Pense no domingo à tarde de João. Ele mora em Belo Horizonte, trabalha a semana inteira, e o momento que mais espera é sentar no sofá com a família e assistir ao jogo do time do coração. Um momento simples, genuinamente dele. Só que antes da bola rolar, antes e durante o intervalo e depois do apito final, João é bombardeado. Na camisa dos jogadores: uma bet. No painel atrás do gol: outra bet. No nome da competição que o locutor repete a cada dois minutos: mais uma bet. No celular, onde ele checou o placar do outro jogo, o anúncio que pulou antes do vídeo: bet. Na camisa do time adversário: bet de novo. João não foi a um cassino. Ele só queria ver futebol.
A pergunta do título tem uma resposta objetiva, e ela é não. Não é possível assistir futebol no Brasil hoje sem ser atingido por publicidade de apostas. E os números explicam por quê isso não é exagero, mas sim a arquitetura deliberada de um mercado que faturou R$ 37 bilhões só em 2025, segundo o Ministério da Fazenda, e que elegeu o futebol como seu principal veículo de comunicação.
Das 20 equipes que disputaram a Série A do Campeonato Brasileiro em 2025, 18 tinham uma casa de apostas como patrocinadora principal. Noventa por cento. Apenas o Red Bull Bragantino e o Mirassol fugiram à regra. Todos os outros, incluindo os times mineiros, exibem no lugar mais nobre da camisa, bem no centro do peito, a marca de uma empresa que vive de capturar apostadores.
O Flamengo recebe R$ 268,5 milhões por ano da Betano. O Corinthians, R$ 103 milhões da Esportes da Sorte. O Palmeiras, R$ 100 milhões da Sportingbet. Juntas, as bets injetaram R$ 1,117 bilhão nos patrocínios máster da Série A em 2025, 125% a mais do que em 2023, quando esse mesmo número era de R$ 496 milhões. Em dois anos, esse mercado mais que dobrou dentro do futebol.
Os clubes não são os maiores vilões nessa história. Eles encontraram uma fonte de dinheiro que nenhum outro setor conseguiu oferecer. Farmacêuticas, bancos e empresas alimentícias perderam espaço porque simplesmente não têm como competir com orçamentos desse porte. O problema não é o clube que assinou o contrato. O problema é o modelo que tornou esse contrato inevitável, e o custo que ele transfere para a população.
Não é só a camisa. Quando você assiste a um jogo na televisão, a bet aparece nas placas eletrônicas do estádio, no nome da competição, nas chamadas da emissora, no aplicativo onde você acompanha o lance em tempo real, no Instagram do clube que você segue, no story do jogador que você admira. As empresas do setor investiram R$ 1,4 bilhão em TV aberta, TV paga, rádio e streaming só em 2025, segundo levantamento da Tunad. Os sites de bets registraram mais de 5 bilhões de acessos no primeiro trimestre deste ano, uma alta de 90% sobre o trimestre anterior.
Isso não é presença de mercado. Isso é onipresença. E não por acaso: 80% das apostas no Brasil têm o futebol como modalidade. As bets precisam do futebol para existir da forma como existem. E agora o futebol precisa das bets para se financiar da forma como se financia. Criou-se uma dependência mútua que vai além dos contratos.
Quem paga a conta
O João, que queria só ver o jogo, faz parte de um grupo de 25,2 milhões de brasileiros que apostaram em plataformas digitais em 2025. O gasto médio é de R$ 164 por mês, mas esse número esconde uma realidade mais dura: a maior parte dos apostadores pertence às faixas de menor renda. Dados do Banco Central revelaram que, em agosto de 2024, R$ 3 bilhões dos R$ 14,1 bilhões pagos pelo Bolsa Família foram usados em apostas via Pix.
As consequências aparecem em quem mais pode ser destruído por elas. Oitenta e seis por cento dos apostadores acumulam dívidas. Sessenta e quatro por cento estão negativados no Serasa. 51% relatam aumento de sintomas de ansiedade, segundo o Instituto Locomotiva.
Aqui em Belo Horizonte, o Instituto Assistencial Espírita André Luiz, na região Oeste da capital, registrou uma alta de 300% nos pacientes diagnosticados com ludopatia, o vício em jogos de azar. Os auxílios-doença concedidos pelo INSS por ludopatia cresceram 2.300% entre 2023 e 2025, segundo levantamento do Intercept Brasil, entre os afastados, 73% são homens entre 18 e 39 anos, trabalhadores em plena vida produtiva.
O que o Senado fez (e o que ainda falta)
Em maio de 2025, o Senado Federal aproveitou parte da pressão e aprovou restrições: proibiu influenciadores e atletas em publicidade de bets, limitou os anúncios em TV à faixa das 19h30 às 24h e vedou propagandas em estádios — com exceções que praticamente mantêm o status quo para quem assiste aos jogos.
Em fevereiro de 2026, a Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado foi mais longe e aprovou um projeto que proíbe toda e qualquer publicidade de bets, incluindo camisas de times. Mas o texto ainda precisa passar pelo Plenário do Senado, pela Câmara e pela sanção presidencial. É um caminho longo, e os clubes já sinalizaram que a proibição total representaria uma perda de R$ 1,6 bilhão para o futebol nacional.
É um debate legítimo. Os times precisam de recursos. Os jogadores precisam de salário. O torcedor quer ver futebol competitivo. Nenhum desses argumentos é desonesto. O que não pode acontecer é usar a dependência financeira do esporte para naturalizar um modelo de publicidade que cria viciados, endivida famílias e sobrecarrega o sistema público de saúde.
Espanha, Itália e Inglaterra já entenderam isso. Nos três países, há restrições severas ou proibições totais ao patrocínio de bets nos uniformes. O futebol europeu não morreu. Os clubes encontraram outros caminhos.
Proposta em BH
Na Câmara Municipal de Belo Horizonte, o vereador Wagner Ferreira propõe lei que institui o Dia Municipal de Conscientização e Enfrentamento ao Vício em Apostas Virtuais e Jogos de Azar, não por coincidência, no Dia da Mentira. Em Junho, será votado na Câmara em 2° turno o projeto de lei que proíbe a veiculação de publicidade de apostas online em estádios, naming rights e contratos com a administração pública municipal. Não se quer impor nada aos clubes; No ano passado, o debate foi aberto com transparência e houve tentativas de ouvir times, federações e a CBF, mas a Câmara foi ignorada.
Porque o João, que ilustra você, torcedor, merece poder assistir ao jogo do Galo ou da Raposa, sem ser tratado como cliente em potencial de uma plataforma de apostas. Porque o filho adolescente do João, num país onde 30% dos jovens entre 16 e 17 anos já apostaram online, muitas vezes com o CPF dos pais, não pode crescer achando que torcer e apostar são a mesma coisa. E porque o futebol, que é o maior patrimônio cultural esportivo deste país, não pode ser a maior agência de publicidade de um setor que adoece quem ama o esporte. A bola precisa rolar. Mas não dentro de um cassino.
Fonte: BHAZ




